Por que o feminismo precisa ser anarquista? por Chiara Bottici

 

Chiara Bottici, filósofa e professora.

“Uma utopia anarcafeminista nos diz que uma sociedade em que cada uma das mulheres é livre ainda está longe, mas também nos mostra que aquelas de nós que caminham nessa direção são a maioria. Algumas chamam de feminismo interseccional, outras ecofeminismo, outras chamam de lutas queer, ou feminismo plurinacional: muda o nome e as prioridades políticas, mas a mensagem fundamental é a mesma – feminismo não significa a libertação de algumas mulheres privilegiadas: significa a libertação de todas nós.” — Chiara Bottici em Anarcafeminismo.

Se por um lado o mundo presencia uma ascensão da extrema-direita no espectro político, por outro, o feminismo nunca teve tanta força e poder de alcance. Para ampliar ainda mais esse debate e trazer novas nuances e contestações, a filósofa italiana Chiara Bottici aponta que é preciso ir além do discurso de busca por igualdade em relação aos homens. Em uma leitura densa de XXX páginas, Anarcafeminismo, lançado agora em português, faz um mergulho completo no movimento e em suas diversas correntes filosóficas, além de ser um convite para criar perspectivas e trazer respostas para os nós em que nos metemos enquanto sociedade. Não é somente um livro feminista, mas sim um livro que agrega novos estratos a esse debate até mesmo para aquelas pessoas com pouca familiaridade com o tema.

Para quem está habituado a textos mais profundos sobre feminismo, o manifesto que Chiara apresenta é ainda mais surpreendente e urgente, assimilando aspectos antropológicos, filosóficos, psicanalíticos e até mesmo ecológicos ao longo dos capítulos. Suas elucidações abordam pautas atuais: desde a contestação do binarismo de gênero até a efetividade do que é conhecido como feminismo interseccional. “Este livro parte de uma visão utópica, a de uma sociedade onde as pessoas desejam e lutam por sua libertação sem criar ainda mais hierarquias para outras pessoas e seres vivos não humanos”, escreve.

A ideia inicial da obra era resgatar a tradição anarcafeminista, mas acabou se tornando uma viagem densa ao cerne eurocêntrico da história do mundo como o conhecemos. E Chiara vai levantando camada por camada, mostrando que é impossível falar sobre feminismo sem abordar a luta de classes, a ótica capitalista como um todo, a questão queer e, também, a necessidade de uma busca contínua por novas definições. Para isso, ela expõe e debate o conceito de anarquia, que, como reforça, não significa desordem, mas sim uma ordem sem ordenador que questiona todas as formas de hierarquia, como a hierarquia do homem sobre as mulheres, pessoas escravizadas, animais e seres inanimados ao longo de toda a história. “Ninguém é livre até que todos os outros o sejam”, pontua.

O livro perscruta o termo “anarcafeminismo”, usado na década de 1970 por movimentos sociais anglófonos que combinavam anarquismo e feminismo. A decisão de manter o prefixo “anarca” no feminino tem como objetivo feminizar o conceito. Ao longo da obra, Bottici exemplifica como, historicamente, o feminismo privilegiou as mulheres brancas — um debate que ainda hoje é, muitas vezes, acalorado dentro do movimento — , além de incutir a importância da prática de um feminismo decolonial, que supere a colonialidade de gênero e conteste as diferentes práticas de cada vertente do feminismo.

Para discorrer sobre a força do sexismo e do racismo arraigados na sociedade, a obra explora o legado de cinco séculos do imperialismo europeu e como ele deixou marcas profundas na sociedade. A autora reflete também sobre a força do capitalismo sobre as mulheres e como ele reforça padrões sociais de gênero, já que exige que as mulheres acreditem cumprir com sua própria natureza ao desempenhar as tarefas domésticas e a criação dos filhos, o que pode até soar ultrapassado para a sociedade moderna, mas que ainda é uma realidade dentro da maioria dos lares.

A filósofa lituana Emma Goldman (1869-1940) foi uma das principais fontes de inspiração para Anarcafeminismo, e seu legado funciona como medula óssea da obra. Por dedicar sua vida à libertação das mulheres, ficou conhecida como “a mulher mais perigosa do mundo”. Para Bottici, Goldman foi uma das feministas mais radicais de seu tempo por nunca ter hesitado em apontar os planos onde o feminismo ainda estava aquém.

Aparecem no livro também nomes como He-Yin Zhen, Étienne de La Boétie, Simone de Beauvoir, Audre Lorde, Oyèrónkẹ Oyěwùmí, Mikhail Bakunin, Judith Butler, Baruch Spinoza, Moira Gatens, Gilbert Simondon, McKenzie Wark e Michel Foucault, tanto para terem suas produções acadêmicas e legados observados como também problematizados diante de novas, e talvez mais radicais, perspectivas.

Com obstinação, fôlego e assertividade, debruçada sobre uma extensa pesquisa, Chiara Bottici traz um conceito fixo durante toda sua obra: a libertação das mulheres só pode ser alcançada através da abolição de todas as hierarquias sociais.

Chiara Bottici é uma filósofa italiana conhecida por seu trabalho sobre como as imagens e a imaginação afetam a política e por seus escritos experimentais feministas. É autora de vários livros, entre eles A Philosophy of Political Myth (Cambridge University Press, 2007), Imaginal Politics (Columbia University Press, 2014) e Per tre miti, forse quattro (Manni, 2016), que abordam a história da filosofia, teoria crítica, psicanálise e feminismo.

Anarcafeminismo é sua primeira obra traduzida para a língua portuguesa e, em 2025, será lançado, também pela Editora Criação Humana, o livro Mitologia Feminista.

Texto escrito pela jornalista Déborah Lopes.