Editora Criação Humana

A pseudo-satisfação e o sentido simulado de domínio que o fascismo oferece

Texto escrito por Zeynep Gambetti* e publicado pelo jornal Sul21.

*Zeynep Gambetti pesquisa o pensamento de Hannah Arendt, história do pensamento político, teoria política contemporânea, ética e política e movimentos sociais. Sua pesquisa atual é A ordem neoliberal, violência e subjetividade. Lançou no Brasil o livro “Agir em Tempos Sombrios”, pela Editora Criação Humana.

Processo criativo de desenvolvimento do projeto gráfico do livro “Agir em tempos sombrios”, da autora Zeynep Gambetti, publicado pela Editora Criação Humana.

O filósofo francês Jean Baudrillard certa vez comparou o fascismo à histeria em massa. Segundo ele, a demanda por poder que caracteriza o fascismo reflete a falta de uma opção de saída nas sociedades capitalistas tardias. Uma vez que se torna impossível conceber uma ruptura radical com os rituais orquestrados pela mídia, as reações antecipadas dos políticos, a lei da equivalência e a troca do mercado, surge uma obsessão crítica pelo poder. A impotência generalizada gera o desejo de jogar com a morte: a fabricação de estacas artificiais recria os efeitos de poder, simulando o jogo da vida e da morte. Quando todos os processos sociais se tornam meras repetições do mesmo, o fascismo entra em ação para fornecer pseudo-satisfação e um sentido simulado de domínio.

Podemos comprovar a validade dessas observações, dados os desenvolvimentos recentes nos EUA, Itália, Turquia e agora no Brasil. A noção realpolitik que nos ameaça está sendo reinventada por políticos e movimentos reacionários. Mas os inimigos não são mais potências estrangeiras que procuram nos invadir. A Guerra Fria terminou e nossas sociedades não são mais ameaçadas por “guerras quentes”. Assim, os inimigos agora são socialmente determinados: são aquelas pessoas cuja presença e práticas cotidianas são consideradas como “anomalias” por certos estratos da população que são incapazes de lamentar o poder que eles não têm mais. Eles não podem confrontar as verdadeiras contradições e problemas que afligem nossas sociedades e privar a todos nós da capacidade de determinar nossas próprias vidas. Eles se recusam a atacar as condições neoliberais que criam atomização e massificação. Em vez disso, eles estão dispostos a sacrificar uma parte da população, responsabilizando-os por seu próprio fracasso.

O pobre, o imigrante, o corpo racializado, o assistente social, o defensor dos direitos humanos, a feminista e o ativista LGBT se tornam alvos de seu senso simulado de poder. Mas o que os consumidores histéricos neste mercado de sinais de poder não percebem é que eles estão prestes a cometer suicídio coletivo. As pessoas que eles designam como “inimigos sociais” são as únicas capazes de reconstruir um horizonte alternativo de emancipação. A ruptura real com a impotência não está na política da morte anunciada por homens fortes populistas, mas em unir nossas energias vitais para gerar poder a partir de baixo – não uns contra os outros, mas uns com os outros.

Zeynep Gambetti autografando o livro “Agir em tempos sombrios”. O lançamento no Brasil aconteceu em Porto Alegre/RS.

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